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domingo, 21 de agosto de 2011

A Bá

Ela não chegou propriamente lá em casa. Foi levada pela minha mãe depois de uma árdua perseguição. Minha mãe, acho eu que num momento de iluminação, sacou que aquela moça que trabalhava para a vizinha da tia seria uma aliada fiel para toda a vida. Sem nenhum pudor iniciou um assédio que acabou por ser bem sucedido.

Depois disso a Bá ficou com a gente por 38 anos e, junto com meus pais, criou a mim e à minha irmã. Quando eu cheguei ela já estava lá me esperando. Gripada, não pôde chegar perto de mim logo de cara. Contrariada, esperou a gripe ir embora para me pegar no colo seguindo a determinação da minha mãe. Ali começava uma das relações mais fortes da minha vida.

A Bá vem me visitar de vez em quando. Fica feliz como uma avó em ver os meus filhos crescendo. Me faz recomendações sobre como lidar com eles. Já bem velhinha chega na minha casa e senta numa cadeira da sala com uma xícara de café. Às vezes aceita um pedaço de bolo. Conta sempre as mesmas histórias que adoramos ouvir. Nos lembra da nossa infância e da sua presença nela.

Ela cuidava de nós duas e da casa e tirava tudo de letra. A comida irreparável. O feijão regado a louro, as batatas fritas, que eram cozidas antes, tinham o formato perfeito de uma lua minguante e desmanchavam na boca. O frango assado com farofa, sempre às quartas-feiras no jantar, eu posso ver na minha frente. Vinha normalmente acompanhado de um molho especial do próprio frango, arroz branco soltinho e vagem francesa. A ambrosia faz parte das minhas muitas lembranças dela. Era servida num pote de cerâmica cujo interior era também amarelo e tinha uma aguinha doce no fundo.

A roupa era passada de modo impecável. As manchas todas removidas com facilidade. A casa sempre perfumada e limpa.

Mas acima de tudo isso o amor dedicado a mim e à minha irmã era algo tocante.

Não me lembro de ver ela brava com a gente. Muitas vezes ficava nervosa comigo e com a  minha irmã se estapiando pelo apartamento. Uma bateção de portas, perseguição munidas de facas, correria, choradeira. Ela não tinha dúvida. Ligava para a minha mãe e nos denunciava.

Na adolescência tomava satisfação dos namorados. E quando eles aprontavam viravam "pesona non grata" lá em casa.

Ela cresceu numa fazenda perto de Cataguases. Veio para o Rio mocinha para trabalhar na casa de uma senhora rica que a maltratava. Era obrigada a dormir em cima do estrado da cama. Sem direito a colchão.  Um dia, conversando com a minha mãe, disse o seguinte: "do meu pai eu só conheci o chapéu." O pai tinha deixado a mãe e sumido no mundo. Tinha muitos irmãos e irmãs e era muito querida por todos eles. Boa toda vida ajudava a todos com seu modesto salário. Gastava apenas com o cigarro, vício abandonado anos depois. Assim, economizou o suficiente para comprar sua casa onde hoje vive com um gato e uma tartaruga.

Perdeu a mãe, alguns irmãos, o único namorado - que morreu atropelado no aterro - e continuou com a gente, morando na nossa casa, ajudando a todos nós com a sua presença confortante e dedicação. Na nossa casa ela tinha quarto com banheiro reformado, colcha de patchwork cor de rosa e, acima de tudo, afeto e respeito.

Depois que tive os meus filhos e passei a observar esse exército de branco que tomou conta da cidade penso sempre na Bá e em como foi bom crescer num momento onde as babás não se vestiam de branco, eram parte da nossa família e nos davam amor de verdade.

Um comentário:

  1. querida (com querer bem de verdade), essa história é tão bonita...queu posso até ver a Bá.
    brigada por falar de amor, de carinho e do mau gosto que é colocar uma pessoa que cuida do que é mais precioso pruma mãe, mais que uniformizada, muitas fezes tratada com tanta distância e indiferença.

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