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quarta-feira, 23 de março de 2011

Gilda

Eu poderia dizer que minha avó foi uma intelectual brilhante e uma das mulheres mais originais e elegantes de que se tem notícia. Mas isso seria cair no lugar comum, chover no molhado, sem nenhuma modéstia.
Pensando nela, que amanhã faria aniversário, algumas coisas me vem de imediato. Há todo um legado que permeia a minha vida e que deve ser a ela atribuído. Penso nela ao me vestir e ao me enfeitar. Lembro dela ao reagir às pessoas e à vida. Ela está sempre presente quando tomo uma chícara de chá, quando passo batom, quando ajeito o meu cabelo, quando visto vermelho. "Vermelho é a mais linda das cores" dizia ela. Minha avó teve a sabedoria de construir uma bela carreira junto com uma família. Escolheu o homem certo, na hora certa. Um talento raro e menosprezado. Teve, com meu avô, um dos casamentos mais plenos de que se tem notícia. Prendada que era, cozinhava, costurava e bordava bem. Nunca comi mousse de chocolate, torta de maçã ou bife iguais aos dela. Os vestidos que tive na infância eram concebidos e executados por ela. Me lembro de alguns até hoje como peças lindas com as quais eu gostaria de vestir a minha filha. Como avó foi sempre uma figura fascinante que me recebia com um carinho contido mas profundo, manifesto nas pequenas coisas do dia a dia. Uma roupa de cama perfumada, um espaço no armário, geléia para a hora do lanche, idas ao cabelereiro, passeios e comprinhas. Entrava-se na sua casa e não se tinha mais vontade de sair. Conversávamos sobre literatura, sobre as minha leituras, sobre a juventude dela perto do primo mais velho e mentor. Seu assunto preferido e recorrente.
Minha avó morou em São Paulo a maior parte da vida. Quando eu nasci, ou logo depois disso, comprou um apartamento no prédio dos meus pais. Conta o meu avô que foi para ficar mais perto da neta.
Já adulta, fui fazer mestrado em São Paulo. Uma vez por semana dormia na casa dos meus avós. Durante um ano e meio corri de cá para lá e de lá para cá, trabalhando e estudando ao mesmo tempo. Vejo a minha avó abrindo a porta do seu apartamento depois das nove da noite com aquele sorriso plácido e acolhedor. Meu avô vinha logo em seguida. Íamos então para a cozinha onde a mesa posta me esperava para jantar junto com eles.
Já bastante doente minha avó conheceu aquele que veio a ser o meu marido. Não era mais possível, naquele momento, manter uma conversa linear com ela mas tenho a certeza de que ela percebeu a visita como deveria pois ela me deu a entender, a seu modo, e dentro das suas limitações, que tinha gostado muito dele.
Passei, sem saber, sua última semana de vida em São Paulo, com ela já no hospital, muito debilitada, muito velhinha, delirando em alguns momentos, mais perto da lucidez em outros. Saí de perto dela no dia 23 de dezembro. Ela se foi no dia 25. No meio da minha tristeza uma coisa me dava conforto. Saber que eu tinha estado com ela durante aqueles últimos dias e acreditar que, de alguma forma, ela havia sentido a minha presença, o meu carinho e o meu amor naquela hora tão difícil quando a vida estava indo embora para ela.
Como acredito que quando morre acaba, lidar com a morte para mim foi sempre muito difícil. Aceitar que alguém que a gente ama acabou é muito duro. Perdi poucos queridos até agora. Uma grande amiga e minha avó foram as perdas que mais senti. Com o tempo aprendi a preencher a saudade com tudo aquilo que fica. Não os colares, vestidos, lenços ou textos mas aquilo que não é tangível. O que dela está em mim e seguirá comigo.
E então, pensando nela posso afirmar, agora sem medo do clichê, que nunca houve uma mulher como Gilda.

2 comentários:

  1. Estou enxugando as lágrimas. Lindo. Um beijo grande, Lena

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  2. Muito emocionante mesmo, Clari, muito bem escrito, você fez a Gilda se materializar para mim. Talvez seja assim mesmo que as pessoas queridas continuem vivas.

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