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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Crush

Tive um amigo músico que dizia não entender - na verdade ele achava graça de mim, quase caçoava, fazia pouco - por que é que eu prestava tanta atenção em letra de música. Por que motivo elas eram tão importantes para mim. Como se isso fosse algo menor, menos sofisticado, menos "cool" mesmo, do que a abstração superior da música em si.

E aqui nesse ponto faço uma pequena digressão.

Muito comum essa necessidade dos homens de diminuir intelectualmente as mulheres que estão ao seu lado. Acho que fica mais fácil para eles. Se colar, colou e os galos ficam cantando sozinhos. Há mulheres também, claro, que têm essa necessidade em relação a outras mulheres. Eu conheço uma que é a personificação disso mas não me serve de exemplo para essa história.

Meu marido, que é uma pessoa adorável, com quem, não por acaso, eu escolhi dividir a vida e ter filhos, volta e meia tem uns lapsos análogos ao do meu amigo. Conversa assuntos com seu pai que não conversa comigo. Inadagado sobre isso uma vez me deu a seguinte resposta: você não lê The Economist.

Meu pai constitui como poucos outra excelente analogia. Frequentemente conto para ele que cometi o crime hediondo de assistir determinado filme não pertencente à esfera cult-sofisticada-cabeça-alternativa frequentada por ele. Quando como resposta não recebo apenas silêncio, ouço algo como: "eu não sei que filme é esse" ou "ah, fizeram um filme sobre isso?", "minha filha você precisa apurar seu gosto". No caso dele, especificamente, eu não deveria me espantar pois foi ele quem me levou, aos oito anos de idade, para assistir, no Ricamar, num domigo chuvoso, "Ivan o Terrível" e surpreendeu-se quando eu me escondi atrás da poltrona da frente e disse que queria ir embora.

Coitadinha de mim se eu fosse acreditar nesses rapazes. Digressão concluída, volto ao meu tema.

O amigo músico só conseguia prestar atenção na música, na melodia, na harmonia, no ritmo e, para ele, a letra não tinha a menor importância. Eu me lembrava de letras inteiras, comentava, cantarolava, me emocionava, fazia referências, dedicatórias, usava aquilo no meu dia a dia e ele achava isso muito engraçado, quase um fenômeno, uma bobagem juvenil.

Não me espanta que a nossa história não tenha evoluído. Ok, poderia se achar que nossas visões se complementavam, letra & música, oh, em harmonia, mas eu realmente não consigo entender como alguém pode ouvir uma canção e não perceber a letra.

Ele se traiu um dia quando, voltando da praia juntos, ouviámos no carro aquele cd Duets, do Frank Sinatra. De repente entra a Barbra Streisand: I've got a crush on you...sweetie pie... Ele vira-se para mim: essa é a nossa música, é isso o que a gente tem. Ahã.

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