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terça-feira, 12 de abril de 2011

Edith & Beth

A fotocópia do conto da Edith Wharton chegou ao meu escritório, dentro de um envelope pardo, com o seguinte texto escrito à caneta vermelha na capa:


"Clarisse - It was terrific to meet you over lunch last week. I tried to deliver this to your hotel, but you had already left. It would have been perfect plane reading. I hope it is not too late. Please send me news of a happy ending! All the best, Beth."

O conto em questão chama-se "The Long Run" e ao que tudo indica foi publicado nos Estados Unidos em 1912. Edith Wharton viveu de 1862 a 1937. Eu nasci em 1972. Não fosse isso e eu teria a certeza de que, com pequenas nuances, ela reproduz uma situação vivida por mim anos atrás.

A capacidade de retratar com perfeição situações na verdade universais, que muitos de nós vivemos e com as quais, portanto, nos identificamos, é, até onde eu posso perceber, uma das principais características dos grandes escritores. É, em outras palavras, a empatia, construída pelo autor, dos leitores com os personagens e as passagens narradas.

Por isso, não há nada de extraordinário em constatar a consagrada genialidade de Edith Wharton ao ler seu conto e de alguma forma me ver na sua personagem feminina.

Eu havia almoçado com três advogadas em Chicago quando estive lá a trabalho em 2002. Fui visitar o escritório onde elas trabalhavam e elas me levaram para almoçar. Sabe como é, quatro mulheres juntas. O papo rapidamente migrou do trabalho para a vida pessoal de cada uma. Acabei comentando que tinha reencontrado um grande amor depois de anos, contando toda a saga para elas. As três, um pouco mais velhas que eu, ficaram excitadíssimas, animadas mesmo com a história ou pelo menos com o meu relato, com a minha visão dela.

Beth tentou fazer com que o tal conto chegasse às minhas mãos antes da minha partida mas só fui recebê-lo algum tempo depois da minha volta ao Rio. Uma pena. Talvez eu pudesse ter sido persuadida a enxergar as coisas como elas de fato se apresentavam.

Quando finalmente comecei a ler já era tarde demais. Inicialmente fiquei meio sem entender o motivo pelo qual ela havia se empenhado tanto em fazer com que o conto chegasse às minhas mãos mas a medida em que fui avançando no texto fui tomada por um sentimento que era um misto de medo, nervosismo e emoção. Ao adivinhar o que viria a seguir, pois naquela altura eu já sabia o que ia acontecer, eu temia cada palavra com o coração disparado, como se o conto fosse a prova cabal do desfecho da minha história e confirmasse sua condenação ao fracasso.

Lembro que escrevi para a Beth agradecendo muito pelo texto antes mesmo de lê-lo mas tenho a impressão de que nunca escrevi para ela depois, contando o que tinha acontecido. Assim como na história de Halston Merrick e Paulina Trant o Happy Ending desejado pela Beth não aconteceu.

Arrumando algumas gavetas recentemente esbarrei com a cópia do conto e com o bilhete escrito em vermelho na sua capa. Lembrei desse episódio e mais uma vez me impressionei com a sensibilidade que fez com que a Beth, sem conhecer a mim ou ao personagem masculino da minha história, e em apenas algumas horas, fosse capaz de perceber meandros até então insuspeitos e relacioná-los com o conto de Edith Wharton.

Talvez eu devesse escrever para ela contando que houve um Happy Ending na minha vida. Logo depois desse episódio encontrei meu marido no meio de uma pista de dança e fui feliz para sempre.

2 comentários:

  1. Sim, escreva para Beth, que história ótima!

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  2. adorei!Já cantava um certo stone "but if you try sometimes you just might find, you get what you need..."
    um final feliz novo!

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